Médicos cubanos que ficaram no Brasil vivem dias de angústia e preocupação; Em Várzea Alegre, moram dois profissionais




Os médicos cubanos que decidiram ficar no Brasil estão em duas situações distintas: há aqueles legalizados com o governo cubano (a maioria é casada) e há aqueles considerados desertores, que só poderão voltar à Cuba após oito anos. Yuniel Gonzalez, que trabalhava no programa Mais Médicos em Várzea Alegre, é um deles.
Yuniel Gonzalez e namorada, Karoline Souza, no sítio Rosa, em Várzea Alegre. Fotos de HB.
Os profissionais permaneceram no Brasil, após o rompimento do contrato com o Programa Mais Médicos, em novembro de 2018, por iniciativa do governo de Cuba, enfrentam um quadro adverso. Desempregados e sem renda, o sonho de exercer a profissão no Brasil começa a virar um pesadelo.


Dois profissionais que moram em Várzea Alegre estão preocupados e vivenciam uma realidade angustiante.

Dois motivos básicos foram decisivos para a permanência dos médicos no Brasil. O sentimento de amor, pois muitos casaram e tiveram filhos, e a esperança em uma vida melhor, financeiramente, e a possibilidade de ajudar a família em Cuba.



Há entre os profissionais de saúde a expectativa de que fossem chamados para ocuparem vagas ociosas no Programa Mais Médicos, e com um contrato de três anos pudessem fazer o exame de revalida, obter o registro do Conselho Regional de Medicina (CRM) e a cidadania brasileira.

O ex-deputado federal Odorico Monteiro reuniu-se recentemente com um grupo de médicos que decidiu permanecer no Brasil. “Eles me pediram apoio e vejo que muitos já enfrentam dificuldades, já trabalham em serviço burocrático, como motorista de Uber, por exemplo”, frisou. “Há de se olhar em cada município se ficaram vagas ociosas no Mais Médico/PSF, pois nos últimos anos mais profissionais médicos brasileiros chegaram ao mercado”.
Expectativa

A esperança ainda persiste, mas é um fio cada vez mais tênue. “Estou confuso, desempregado, prestes a passar fome”, disse o médico, Yuniel Reynaldo Gonzalez, 35 anos, que está morando com a família da namorada, Karoline Alves de Souza, 21 anos, no sítio Santa Rosa, zona rural de Várzea Alegre. “Não sei como vai ficar a situação, se haverá vagas para os médicos ainda sem o CRM e quando haverá prova do revalida”.

O namoro resultou na gravidez de Karoline Souza. Há dois meses, nasceu Nicole. Yuniel Gonzalez conheceu a jovem Karoline em uma consulta do Programa Saúde da Família na localidade de Santa Rosa. “Ela estava com dor de garganta e foi também renovar a receita da avó”, relembrou Yuniel. Os dois trocaram olhares e dias depois ele pegou o contato dela e após troca de mensagens começou o relacionamento amoroso.

A netinha trouxe alegria para os pais e avós. Karoline pretende concluir o curso técnico de enfermagem na cidade de Várzea Alegre. O desemprego do marido e a perda de renda mensal obrigaram o casal a entregar a casa alugada e passar a morar no sítio. Entretanto, a situação do sogro, agricultor, também é de uma família de baixa renda.

Yuniel Gonzalez recebia do governo cubano, R$ 2.975, 00 e mais R$ 3.000,00 do município. Havia a expectativa de que o trabalho permaneceria por pelo menos mais três anos. Agora os médicos cubanos que permaneceram no Brasil estão desempregados, em crise e sem expectativa, com temor de que o quadro piore ainda mais.

“Estou legalizado em relação ao Brasil, tenho visto permanente e carteira de trabalho”, frisou Yuniel Gonzalez.

Temor
O temor dos que aqui ficaram é de que as vagas ociosas sejam preenchidas e, por isso, o clima é de desespero. Na tarde desta quinta-feira, 7, um colega de Gonzalez que permaneceu em São Paulo informou por telefone que só dispunha de R$ 120,00. Os parentes em Cuba sabem das dificuldades que os filhos estão enfrentando no Brasil e assim toda a família fica abatida e preocupada.

Uma médica cubana de 56 anos que chegou a Várzea Alegre em 2013, casou-se em 2016 e também decidiu permanecer. Um dia após conceder entrevista ao Diário do Nordeste pediu para não ser identificada. Ela deixou uma filha em Cuba. Trabalhou por dois anos em um PSF do distrito de Ibicatu, deixou muitos amigos e saudades. “Fazia um excelente trabalho, era atenciosa”, disse a dona de casa, Francisca Oliveira.

Agora, a médica, ao lado do marido brasileiro, vivencia a angústia e o risco de não ser contratada no Mais Médicos e a indefinição de quando o governo federal vai realizar a prova do revalida.

Amor
Uma história de amor ocorre no município de Catunda, a cerca de 256 km de Fortaleza, entre o músico Pedro Neto e a médica, cubana, Yudelkis Gonzalez que estavam de casamento marcado quando foram separados, em novembro passado, após o fim do contrato entre os governos cubanos e brasileiros no programa federal.

Pedro Neto fez uma campanha, bingo de uma moto e vendeu móveis, arrecadou dinheiro e conseguiu obter documentação e o retorno da noiva ao Ceará. “Foi uma alegria, porque a gente estava com medo de não dar tempo, pois ela tinha que receber documentos em Cuba e ter a liberação do trabalho”.
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