A decisão do presidente Jair Bolsonaro de criar
seu próprio partido, a Aliança pelo Brasil, estimulou um movimento de
reposicionamento do PSL no cenário político.
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| Antônio Cruz/Agência Brasil |
Assim
que o presidente oficializou seu desembarque, os dirigentes da sigla deram
início a uma articulação para atrair nomes que não dialogam com o que chamam de
"direita autoritária" do clã Bolsonaro.
Além
de acenos já tornados públicos –como os ao governador do Rio de Janeiro, Wilson
Witzel (PSC)–, integrantes do PSL dizem que o ministro da Justiça, Sergio Moro,
é hoje um dos sonhos de consumo da sigla recém-abandonada pelo presidente.
Os
dirigentes do partido acreditam que a relação instável que o Planalto
estabeleceu com o ex-juiz da Lava Jato abriu brecha para que Moro passasse a
ser assediado por partidos com vistas à disputa presidencial de 2022.
O
Podemos, inchado pelo forte discurso pró-Lava Jato e anticorrupção, já se
colocou como opção para uma eventual candidatura do ex-juiz.
No
PSL, a avaliação é a de que o ministro tem sido "subaproveitado" pelo
governo. Apesar de ter chegado à Esplanada com a alcunha de
"superministro", Moro viu suas principais agendas ficarem escanteadas
no primeiro ano da gestão Bolsonaro.
"O
PSL raiz é o único de fato que defende 100% a agenda do Moro. O governo por diversas
vezes boicotou a agenda do ministro, como no caso do Coaf", diz a deputada
Joice Hasselmann (PSL-SP), desalojada do posto de líder do governo no Congresso
no auge do racha do partido com Bolsonaro.
A
parlamentar rememora episódio de meados de maio, em que o Congresso impôs uma
derrota ao ministro da Justiça, tirando o Coaf (Conselho de Controle de
Atividades Financeiras) de sua pasta e transferindo-o para o Ministério da
Economia.
O
órgão, rebatizado de UIF (Unidade de Inteligência Financeira), era considerado
estratégico para Moro em sua pauta de combate à corrupção. À época, Bolsonaro e
seus principais aliados do Planalto não fizeram movimentos para evitar o revés
ao ministro.
"Se
o país tivesse possibilidade de ver o Moro filiado a algum partido político,
com certeza a gente faria todo esforço do mundo para que fosse neste PSL, que
sempre sinalizou e fez gestos em direção aos ideais e pautas que ele
sustenta", diz Junior Bozzella (PSL-SP), recém-alçado ao posto de
vice-presidente do partido. Joice afirma que, por ora, Moro não tem mostrado
interesse de ingressar em um partido político, mas que "o PSL estará de
braços abertos se ele decidir trilhar esse caminho".
Nos
bastidores, porém, a cúpula do PSL não esconde a vontade de ter Moro em seus
quadros o quanto antes.
Mesmo
sem a influência política de Bolsonaro, o PSL detém um capital importante: a
maior fatia dos fundos partidário e eleitoral. No ano que vem, os recursos
destinados à sigla podem chegar a R$ 350 milhões.
Num
movimento simultâneo, Bolsonaro passou a fazer mais recentemente acenos a Moro.
Eles foram intensificados em meio ao rompimento do presidente com o PSL. A
relação distante e conflituosa do chefe do Executivo com o auxiliar deu espaço
a afagos públicos.
No
início do mês, em um evento em São Paulo, o presidente afirmou que não estaria
onde está se o ministro da Justiça não tivesse cumprido bem a sua missão quando
era juiz da Lava Jato.
"Se
essa missão dele não fosse bem cumprida, eu também não estaria aqui, então, em
parte, o que acontece na política do Brasil devemos a Sergio Moro", disse
Bolsonaro.
Dias
depois, o presidente exaltou em suas redes sociais o pacote anticrime, a menina
dos olhos de Moro. Nesse cenário, aliados de Bolsonaro passaram a dizer que ele
gostaria de ter o ministro como seu vice na eleição de 2022.
O
aceno para a agenda de combate à criminalidade e à corrupção, cara a Moro,
também esteve presente no lançamento da Aliança pelo Brasil, na quinta (21), em
Brasília.
O
estatuto do novo partido de Bolsonaro determinou, por exemplo, que seus
filiados não poderão ter condenações em segundo grau pela prática de crimes
hediondos, de violência contra a mulher, de violência sexual contra crianças e
adolescentes, estelionato, corrupção e lavagem de dinheiro.
No
evento, o presidente também defendeu que a segurança pública seja reforçada
para acompanhar a recuperação da economia.
"Não
adianta alguém estar muito bem de vida se está preocupado, com medo de sair na
rua, com medo de ladrão de celular. Ladrão de celular tem que ir para o
pau", disse Bolsonaro ao anunciar o envio de um projeto ao Congresso para
isentar de punição militares e policiais que cometerem excessos durante
operações de garantia da lei e da ordem.
Enquanto
Bolsonaro trabalha para se reaproximar da agenda de Moro, o movimento do PSL em
direção ao ministro da Justiça faz parte da estratégia da comando do partido de
se afastar do que classificam como "bolha bolsonarista". O objetivo
agora, dizem os dirigentes, é o de se aproximar de pessoas que estão engajadas
na pauta da "direita racional e responsável".
Procurado,
Moro disse que não comentaria.
"Existe
uma direita responsável, que está bem longe do extremismo e do radicalismo do
bolsonarismo e do PT. Uma direita que respeita a democracia, que rejeita o
autoritarismo e dialoga", declara Bozzella.
A
apresentação do Aliança pelo Brasil, avalia a cúpula do PSL, mostrou que
Bolsonaro não está disposto a ampliar seu olhar sobre a sociedade brasileira.
Os
antigos aliados do presidente dizem que o programa da nova sigla deixou ainda
mais evidente que o clã Bolsonaro busca "falar para convertidos" e
que as pautas prioritárias do país não estão no horizonte da Aliança.
O
novo partido, que terá em seu comando Bolsonaro e seus filhos, foi lançado com
forte apelo ao discurso de cunho religioso, à defesa do porte de armas e de
repúdio ao socialismo e ao comunismo.
Thais Arbex/Folhapress













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