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Gonzaguinha, 70 anos

De onde vinha o olhar de esguelha? E a voz malandra e melodiosa? De onde vinha o dedo apontado, quando a lógica seria a cabeça baixa? De onde vinha tanta força daquele corpo magrelo? Abusado… moleque… favelado… De onde vinha o dom de afirmar adjetivo onde os outros queriam estigma?

Os becos sinuosos, morro abaixo, ali no São Carlos, berço do samba, teriam sincopado esta alma? O espírito de sobrevivência herdado do pai nordestino retirante, que partiu por querela com coronel, por questão do coração, lhe fizeram escorregadio como solo de sanfona de Gonzagão? Ou foi o bailar dos dancings cariocas que lhe foram passados por Odaleia, sua mãe? E este jogo de perda e ganho de amor paterno e materno, teriam lhe ensinado a dor e o amor?

Foi tudo isso, mas não… Não existe receita. Mais que tudo isso, é preciso ser Gonzaguinha. É preciso ser duro e doce. Dizer não, porque se deseja o sim. É preciso soltar a voz… explodir o coração… é preciso deixar claro que “se mandar calar mais eu falo”, mas que se me der a mão, “vamos ver o diabo de perto”.

E que falta faz um Gonzaguinha. Em tempos de falsos consensos e líquidos amores… em tempos de nulos debates… cínicos silêncios… Ah… vocês merecem… vocês merecem…

Faria ele, este ano, 70 anos. Se foi cedo. Aos 45. Sem prorrogação ou pênaltis. Quem foi este juiz que prejudicou tanto nosso time? Que falta nos faz!

Não caberia um Gonzaguinha no mundo de hoje ou o mundo de hoje ficou pequeno demais para ele? A verdade é que necessitamos dele. Sua obra segue maior que ele. Segue presente e pertinente. Segue impertinente aos que nos querem calar. Aos que desejam o amor apequenado. Sua obra segue como um perfume forte que fica quando o dono já se foi.

Sigamos moleques e abusados. Sejamos dedo em riste e coração aberto.


Neste ano em que faria 70 anos, que Gonzaguinha seja verbo e adjetivo! Nós merecemos! Precisamos!

Fonte: Musicaria Brasileira

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