Formada há 100 milhões de anos, gruta é ponto turístico em Barbalha


Localizado a cerca de 15 quilômetros da sede do Município de Barbalha, no Sítio Santo Antônio, o Arajara Park - popular parque aquático do Cariri - protege um importante patrimônio local: a Gruta do Farias. Única com formação arenítica do Ceará, com água em seu interior, o local possui cerca de 100 milhões de anos e apresenta importante registro da vida pré-histórica. Mas não é só isso. Lá, habitam diversos animais e seu recurso hídrico ajuda a manter um importante ecossistema, além de irrigar as roças dos agricultores do sopé da Chapada do Araripe.

Importância
Sétima maior gruta do Ceará, com 150 metros de extensão, a Gruta do Farias fica a poucos metros da entrada do parque aquático, em uma agradável trilha entre a mata verde. Dentro dela, há uma fonte natural que jorra cerca de 348 mil litros de água por hora. No entanto, a entrada em sua estrutura só é permitida para pesquisadores.

De forma inédita, a equipe do Sistema Verdes Mares conheceu o interior deste importante ponto turístico do Cariri. Até a construção do parque, que durou quatro anos, o local ficava aberto, sem nenhum tipo de proteção, e recebia muitos visitantes. "Não tinha reflorestamento. O pessoal vinha para cá com bebida, comida, cortava as plantas. Hoje, para se entrar na trilha, tem que vir com alguém. Nós temos que fazer esse cuidado", conta o guia turístico José Marcos de Barros, que nasceu e se criou no Sítio Santo Antônio, onde foi erguida a atração turística.

Os fundadores do Arajara Park adquiriram terras próximas à encosta da Chapada do Araripe no fim da década de 1990. À medida que descobriram as belezas do entorno, surgiu o desejo de tornar ali um ponto turístico. Em 21 de abril de 2002, o parque foi inaugurado. Com 75,6 hectares, em Área de Proteção Ambiental (APA), o local se transformou em uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN). "Se não fosse isso, a gruta não estaria tão preservada", acredita José Marcos.

Singularidade
Entrar na gruta é uma experiência "corajosa" por parte dos visitantes, já que o nível da água é alto e o teto baixo. Na maior parte do tempo, os pesquisadores têm que andar agachados para não encostar no teto. As pedras também dificultam a passagem. E a própria escuridão representa um grande desafio.

Porém, a água cristalina e os seus mistérios seduzem os mais curiosos. Ali, surgiram diferentes narrativas que assustaram barbalhenses por muitos anos. As lendas da Mãe D'água e da Mocinha do Mato, populares em outras regiões do País, são reproduzidas na gruta. Outros moradores contam que uma luz já foi vista em meio à escuridão. "Minha avó contava muitas histórias. Ela dizia que via uns menininhos conversando, mas quando chegava perto, sumiam. Tem gente que já escutou assovio, grito. São fenômenos que deixamos do jeito que estão. Nosso papel é preservar, mas a pessoa que for mole, corre", brinca o guia turístico.

Contudo, é preciso conviver com seus mais notáveis moradores: os morcegos. No local, são encontradas, pelo menos, quatro espécies do mamífero voador: o morcego-de-cauda-curta, o Pteronotus gymnonotus, o morcego-focinhudo e o morcego-orelha-de-funil. Este último tem ocorrência, principalmente, nos estados do Amapá e ao sul do Rio Grande do Sul. Eles costumam habitar grutas ou cavernas úmidas. De todos encontrados dentro da Gruta do Farias, ele também é o mais ameaçado de extinção. E o animal segue desaparecendo de nossa fauna.

Segundo a pesquisadora Raquel Soares, há uma estimativa que nos próximos 10 anos a população desta espécie seja decrescida em 30%. "Por isso, é importante preservar essas áreas", explica.

Ameaça
A degradação dos ambientes em que os morcegos vivem, o desmatamento e a exploração de grutas e cavernas são alguns fatores que "prejudicam o desenvolvimento da espécie", acrescenta Soares.

Com variados hábitos alimentares, a maioria desses animais são frugívoros (que se alimenta de frutas, verduras e legumes) e insetívoros (de insetos). No mundo, há em torno de 1.300 espécies, mas apenas três são hematófagos, ou seja, se alimentam de sangue. "Criou-se todo um mito em relação aos morcegos. Estão sempre associados à criaturas malignas. De certa forma, são injustiçados. Boa parte se alimenta de insetos, então faz serviço ambiental excelente. Fazem um controle biológico. Controla pragas e outros dispersam sementes. Ao se alimentar de frutos, eles semeiam florestas", garante Raquel.

Além dos morcegos, as cobras e os sapos costumam ser comuns. Há ainda forte incidência de raposas, guaxinins, tamanduás e espécies de pássaros como o Soldadinho do Araripe, pássaro nativo da Região ameaçado de extinção, e o Pica-Pau verdadeiro.

ANTONIO RODRIGUES
COLABORADOR

Fonte: Diário do Nordeste
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