Comoção não pega, e erros se somam a rejeição no caminho de Bolsonaro

A oscilação positiva, de dois pontos, indica que era mesmo exagerado o temor das candidaturas rivais de que o atentado fosse um carimbo no passaporte de Bolsonaro para o segundo turno. Ele segue um robusto candidato a uma das vagas, mas seu caminho tem vários obstáculos.

Que a comoção jornalística e política do incidente não havia se tornado uma onda no eleitorado, isso era um dado com que o PSDB e o MDB já trabalhavam no dia seguinte ao atentado, por meio de pesquisas qualitativas. Não foi por acaso que o tucano Geraldo Alckmin foi o primeiro a modular o tom de sua empatia, sendo seguido por Ciro Gomes (PDT).

Ainda assim, a variação dentro da margem de erro é frustrante para o campo bolsonarista. Há duas explicações para isso.

Primeiro, a enorme rejeição do deputado, de 43%. Ela se mostrou firme: ainda que seja incomparável do ponto de vista metodológico, pois no levantamento anterior Luiz Inácio Lula da Silva (PT) estava incluído na pergunta sobre quem o eleitor rejeitava, é um patamar compatível com a rejeição pré-atentado (39%).

O fato de que ele fracassa em todas as simulações de segundo turno, com uma exceção em curva desfavorável no embate com Fernando Haddad (PT), apenas comprova a teoria Marine Le Pen, segundo a qual o deputado seria uma versão tropical da líder da extrema direita francesa: pode chegar à disputa final, mas invariavelmente acabará derrotado.

Isso deverá servir de alimento para as campanhas rivais, particularmente a tucana, que dispõe de espaço generoso de inserções de rádio e TV. Com a dificuldade óbvia de criticar um convalescente muito abertamente, é um caminho a mais para miná-lo.

O fator adicional concorrendo contra o deputado é a sucessão de erros de sua descentralizada campanha. Como a Folha mostrou, não existe um comando político unificado a tocar o barco de Bolsonaro, primariamente capitaneado pelo próprio. Assim, com o comandante derrubado fisicamente, o barata-voa  instalado ofertou vários passos em falso.

Fotos do candidato fazendo o seu sinal emulando uma arma empunhada após sofrer uma violência, os inúmeros vídeos com o senador Magno Malta (PR-ES) a orar junto a um agônico Bolsonaro, fotos de cicatriz, nada disso parece ter alcançado aqueles que não são seus eleitores fiéis.

Daqui para a frente, sem a presença física de Bolsonaro, as dificuldades de comunicação tendem a se acentuar. Obviamente, ele segue competitivo, com a intenção espontânea de voto subindo cinco pontos. Mas aí também pode haver um soluço inicial ligado ao atentado, fora o fato de que é um índice que circula pelo que parece ser seu teto.

No embolado segundo pelotão da disputa, há boas notícias para Haddad, Ciro e, em menor escala, Alckmin. O petista ainda nem foi lançado oficialmente como poste de Lula e viu dobrar sua intenção de voto, comprovando as teses daqueles que veem racionalidade no processo político.

A queda na intenção espontânea de voto do ex-presidente também indica que a ficha caiu para seus apoiadores de que ele não terá como ser candidato contra a lei.

Mas Haddad talvez não contasse com a resiliência de Ciro. Sem estrutura ou espaço de propaganda decente, o pedetista logrou subir acima da margem de erro. Se ele captar uma parte razoável do espólio nordestino do voto de Lula, poderá dar trabalho ao PT, que mal consegue cerrar fileiras em torno do contestado ex-prefeito paulistano.

A situação de Alckmin é ambígua. Ele é o potencial maior beneficiário de uma eventual queda de Bolsonaro no pós-atentado, e o desempenho competitivo no segundo turno dará argumentos àqueles que acreditam que o tsunami de propaganda eleitoral à sua disposição irá render dividendos.

Mas o próprio comando tucanohavia se concedido dez dias de horário eleitoral para algum tipo de mudança significativa de cenário. Assim, a estagnação ainda registrada é, para ser gentil, agoniante para o comando da campanha. Se permanecer assim até semana que vem, os rumores de cristianização da candidatura voltarão com força.

Por fim, Marina Silva. A presidenciável da Rede viu seu apoio derreter. Até seu bom desempenho de segundo turno se perdeu. A manter a linha atual de campanha, parece bastante difícil que ela consiga reverter os efeitos da queda

Fonte: Folha de São Paulo
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