» » Alckmin e Bolsonaro estão contra a universidade

Em passagem pouco comentada da entrevista de Geraldo Alckmin à Globonews (2/8), o candidato do PSDB defendeu a cobrança de mensalidade nos cursos de pós-graduação das universidades públicas.

Perguntado se era favorável ao ensino superior pago, o ex-governador paulista respondeu: “O primeiro passo seria cobrar toda a pós-graduação”, deixando implícito que o segundo atingiria a graduação.

Apresentada no tom suave que costuma caracterizar as falas do tucano, trata-se de proposta dura. Vale lembrar que a eliminação da gratuidade universitária foi uma das importantes medidas adotadas pelo governo do general Augusto Pinochet no Chile (1973-1990).

O país de Salvador Allende teve que esperar décadas, e passar pela mais importante movimentação de massa pós-redemocratização, para reinstituir a universidade pública e gratuita em janeiro passado.

Por que o prudente político resolveu mexer no vespeiro quando sabe que o pagamento da pós-graduação resolveria pouco da crise de financiamento da educação superior? A resposta tem a ver com a corrida no campo conservador.

Está na internet que, uma semana antes da declaração de Alckmin, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do candidato JairBolsonaro, em passagem por Bauru, interior de São Paulo, havia afirmado ser favorável a privatizar toda a educação: “Quem não reunir condições financeiras para pagar, receberia uma bolsa do governo, para escolher a escola ou a universidade privada que entender ser melhor”.

A fala do clã bolsonarista está em linha com a visão privatista radical anunciada pelo guru econômico do pai, Paulo Guedes. Pergunto-me, se a Petrobras pode ser vendida, por que não o sistema público de ensino superior?

Ao defender a pós-graduação paga, Alckmin está dialogando e tentando atrair votos de setores que foram bem longe no caminho do privatismo.

 As universidades públicas têm sido o principal foco de resistência ao golpe parlamentar e ao desmonte do que existe de Estado de bem-estar social no Brasil. Destruir o seu etos — e é isso que a cobrança de mensalidade faz ao mercantilizar o conhecimento — constitui objetivo programático do conservadorismo. Desconfio que o tema veio para ficar.

Na semana passada, escrevi que o atual Partido Socialista Brasileiro (PSB) foi fundado pelo ex-governador Miguel Arraes. O ex-ministro e ex-presidente da agremiação Roberto Amaral esclarece que a legenda foi refundada em 1985, depois de ser extinta pela ditadura militar de 1964, sob a liderança de Jamil Haddad e Antônio Houaiss, tendo Arraes ingressado apenas em 1990.

Por André Singer - Folha de S.Paulo

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